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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Escutar a pessoa LGBT: uma resposta ao documento do Vaticano sobre a teoria do género

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Participantes na marcha transportam uma bandeira arco-íris ao longo da 5.ª Avenida durante a Parada do Orgulho LGBT em Nova Iorque no dia 24 de junho de 2018. (Foto AP/Andres Kudacki)

 

Nos últimos anos o Vaticano (incluindo papas, congregações e dicastérios) têm expressado preocupação em relação à «teoria do género» e «ideologia do género». O último documento da Congregação para a Educação Católica, intitulado «Homem e Mulher Ele Criou-os», é o tratamento do tópico mais abrangente até hoje produzido. O documento vem de uma Congregação do Vaticano e não está assinado pelo Papa Francisco, pelo que não é a palavra final sobre o assunto.

 

A teoria do género é uma terminologia muito escorregadia. De uma maneira ampla, refere-se a um estudo sobre o género e a sexualidade e a forma como estas duas realidades são naturalmente determinadas (isto é, biologicamente) e/ ou socialmente (ou seja, culturalmente). Normalmente inclui o estudo das experiências das pessoas LGBT, e de todas as que se identificam como «queer», outro termo frequentemente ambíguo que pode significar (mas nem sempre o significa) uma decisão da pessoa se identificar fora das categorias de homem ou mulher, ou gay ou hétero.

 

O novo documento da congregação é um apelo explícito ao diálogo, que todas e todos deveriam acolher.

 

Para alguns críticos, a teoria do género também representa uma «ideologia» que procura impor-se aos outros, «encorajando» ou «forçando» algumas pessoas, particularmente os jovens, a questionarem e a reafirmarem a sua própria sexualidade e género. Nalguns círculos da igreja, particularmente nos países em vias de desenvolvimento, é frequentemente ligada a uma forma de «colonialismo ideológico» que procura impor as ideias ocidentais de sexualidade e género às nações em desenvolvimento. O Papa Francisco tem várias vezes advertido para esta crença.

 

O novo documento da congregação deveria ser louvado pelo seu apelo à «escuta» e ao «diálogo». O subtítulo é importante: «Em direção a um Caminho de Diálogo na Questão da Teoria do Género na Educação.» É um apelo explícito ao diálogo, que todas e todos deveriam acolher. Fala de um «caminho», o que significa que a igreja ainda não alcançou o destino. Centra-se na «questão» da teoria do género na educação, o que deixa algum grau de abertura, e é, portanto, principalmente dirigido aos educadores e «formadores», incluindo aquelas e aqueles responsáveis pela formação dos padres e membros das ordens religiosas.

 

Outro aspeto positivo deste documento é o seu apelo claro ao «respeito para com cada pessoa na sua particularidade e diferença» e a sua oposição ao «bullying, violência, insultos ou discriminação injusta.» Louva igualmente «a capacidade para acolher com respeito todas as manifestações legítimas da personalidade.»

 

A conclusão do documento fala do caminho do diálogo, que inclui «escutar, raciocinar e propor». Assim, deixa aberto espaço para mais desenvolvimentos e evita igualmente alguma da linguagem mais dura de outros pronunciamentos do Vaticano sobre a sexualidade e, particularmente, sobre a homossexualidade.

 

Esta visão tradicionalista é, contudo, contraditada por aquilo que muitos biólogos e psicólogos compreendem agora sobre a sexualidade e o género.

 

Deixem-me, pois, comprometer-me no diálogo respeitoso a que se faz apelo, na qualidade de alguém que ministra para as pessoas LGBT.

 

O que propõe a congregação? Essencialmente, e sem qualquer surpresa, o seu documento reafirma a visão tradicional católica sobre a sexualidade: o homem e a mulher são criados (como heterossexuais) com papéis sexuais e de género fixos. Esta visão tradicionalista é, contudo, contraditada por aquilo que muitos biólogos e psicólogos compreendem agora sobre a sexualidade e o género. Estes avanços contemporâneos na compreensão da sexualidade e do género humanos foram colocados de lado pela congregação em prol de uma compreensão binária da sexualidade. Mesmo o termo «orientação sexual» é colocado entre aspas no documento, como se para colocar essa mesma noção em causa.

 

O cerne do argumento da congregação encontra-se nesta compreensão do género. «Esta separação [do sexo a partir do género] está na raiz das distinções propostas por 'orientações sexuais' diferentes que já não são definidas pela diferença sexual entre homem e mulher e podem, então, assumir outras formas determinadas somente pelo indivíduo, que é visto como radicalmente autónomo.»

 

Uma objeção a essa proposta é a de que ela ignora a experiência de vida real das pessoas LGBT. De facto, os principais parceiros do documento para a conversa parecem ser filósofos, teólogos e documentos antigos da igreja e pronunciamentos papais, em vez de biólogos ou cientistas; em vez de psiquiatras ou psicólogos e em vez das pessoas LGBT e das suas famílias. Se mais pessoas tivessem sido incluídas no diálogo, a congregação teria provavelmente encontrado espaço para o atual entendimento comum de que a sexualidade não é escolhida pela pessoa, mas é antes parte da forma como esta é criada.

 

Se mais pessoas tivessem sido incluídas no diálogo, a congregação teria provavelmente encontrado espaço para o atual entendimento comum de que a sexualidade não é escolhida pela pessoa, mas é antes parte da forma como esta é criada.

 

De facto, para um documento que confia de forma tão pesada (embora implicitamente) na lei natural, este ignora aquilo que nós cada vez mais compreendemos sobre o mundo natural, onde observamos homens e mulheres atraídos para pessoas do mesmo sexo, homens e mulheres sentido uma variedade de sentimentos sexuais ao longo das suas vidas e homens e mulheres que se encontram mais num espectro do que num lugar fixo quando se trata da sexualidade e, ocasionalmente, mesmo do género.

 

A congregação sugere igualmente que as discussões sobre a identidade de género envolvem uma escolha intencional do género por uma pessoa. Porém, as pessoas que são transgéneras relatam que não escolheram a sua identidade, mas que a descobriram através das suas vivências enquanto seres humanos num mundo social.

 

Novamente, o documento negligencia amplamente comprometer-se em discussões sobre os novos pronunciamentos e descobertas científicos sobre o género. Assenta principalmente na crença de que o género é determinado somente pelos genitais visíveis, o que a ciência contemporânea mostrou ser uma forma incorreta (e algumas vezes mesmo prejudicial) de categorizar as pessoas. O género também é biologicamente determinado pela genética, hormonas e química cerebral - coisas que não são visíveis à nascença. O documento da congregação assenta fortemente em categorias de «homem» e «mulher» que foram definidas há séculos atrás e, nem sempre, através dos métodos científicos mais precisos.

 

O documento assenta principalmente na crença de que o género é determinado somente pelos genitais visíveis, o que a ciência contemporânea mostrou ser uma forma incorreta (e algumas vezes mesmo prejudicial) de categorizar as pessoas.

 

O documento é igualmente reforçado pela noção de «complementaridade», o que significa que baseado no seu género (homem e mulher), homens e mulheres têm papéis separados. Numa frase, feita certamente para causar algum espanto, a congregação escreve: «As mulheres têm um entendimento único da realidade. Possuem uma capacidade para suportar a adversidade...» E os homens não? Tais ideias reforçam o estereotipo e impedem que tanto homens e mulheres se elevem acima dessas construções culturais que o Vaticano muitas vezes, com razão, lamenta.

 

O aspeto mais infeliz deste documento é a forma como a congregação entende as pessoas transgéneros. (Estranhamente, num documento sobre género e sexualidade, as palavras «homossexual» ou «homossexualidade» estão ausentes). Consideremos esta passagem: «Esta oscilação entre homem e mulher torna-se, no final de contas, somente uma manifestação 'provocadora' contra as chamadas 'molduras tradicionais' e ignora-se, de facto, o sofrimento daquelas e daqueles que têm de viver situações de indeterminação sexual. Tais teorias têm por objetivo aniquilar o conceito de 'natureza' (isto é, tudo aquilo que nos foi dado a uma fundação pré-existente do nossos ser e ação no mundo), enquanto em simultâneo reafirma, de forma implícita, a sua existência.»

 

Na sua formulação, as pessoas transgéneros estão a ser «provocadoras» e estão, consciente ou inconscientemente, a tentar «aniquilar o conceito de 'natureza'» Amigos e membros da família que acompanharam uma pessoa transgénero através das suas tentativas de suicídio, do seu desespero em encaixar na sociedade, ou a sua aceitação de que Deus as ama, acharão esta afirmação desconcertante e mesmo ofensiva.

 

Provavelmenet a resposta mais ponderada a esta abordagem venha de um diácono católico, Ray Dever, que tem uma filha transgénero e que escreveu sobre a sua experiência familiar na US Catholic. Escreve ele: «Qualquer pessoa com uma experiência em primeira mão com pessoas transgénero ficaria incomodada pela sugestão de que as pessoas trans são, de alguma forma, o resultado de uma ideologia. É um facto histórico que muito antes de existirem estudos de género em qualquer universidade ou a expressão ideologia de género ser mesmo pronunciada, as pessoas transgénero já existiam, eram reconhecidas e mesmo valorizadas em algumas culturas pelo mundo fora.»

 

O resultado a curto prazo do «Homem e Mulher Ele os Criou» será fornecer munições aos católicos que negam a realidade da experiência das pessoas transgénero, que rotularão estas pessoas como meros ideólogos e que negarão as suas experiências de vida. Contribuirá, com quase toda a certeza, para um maior sentimento de isolamento, um maior sentimento de vergonha e uma maior marginalização daquelas e daqueles que já são marginalizados na sua própria igreja: as pessoas transgénero.

 

Regressemos ao aspeto mais positivo deste documento, que poderá ser o resultado a longo prazo: o apelo para a escuta e para o diálogo. A congregação parece ser sincera neste convite. A igreja, como o resto da sociedade, ainda se encontra a aprender sobre as complexidades da sexualidade e do género humanos. O passo seguinte pode ser a igreja escutar as respostas daquelas e daqueles que este documento afeta mais diretamente: as próprias pessoas LGBT.

 

Que o diálogo comece.

 

Fonte: America - The Jesuit Review