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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

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Novo livro, «No Armário do Vaticano», produz uma nuvem tóxica de suspeição

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Foto de Sean Ang em Unsplash

 

Frederic Martel, um sociólogo francês e autor do livro No Armário do Vaticano: Poder, Hipocrisia, Homossexualidade, revelou, de forma ousada, aos jornalistas presentes numa conferência de imprensa, ocorrida no passado dia 20 de fevereiro, na Associação de Imprensa Estrangeira que «a esmagadora maioria» dos mais de 200 membros do Colégio de Cardeais são homossexuais e sugeriu que muitos levam vidas duplas.

 

Embora tenha sido amplamente noticiado que, de acordo com o livro, 80 porcento dos padres que trabalham no Vaticano são gays, na conferência de imprensa Martel procurou distanciar-se desta alegação dramática. Martel afirmou que o número lhe havia sido referido por um sacerdote que ele entrevistou para o livro. «Não valido, nem deixo de o fazer. Como é que podemos sabê-lo?» disse ele aos jornalistas.

 

Questionado pela revista dos jesuítas americanos, America, por provas que justificassem esta afirmação de que «a grande maioria» dos cardeais na igreja são homossexuais, Martel não conseguiu dar qualquer resposta justificativa.

 

A tese central deste livro é aquela de que os cardeais e bispos que fazem condenações fortes da homossexualidade são mais propensos a ser gays eles próprios. Martel descreve isto como sendo parte da sua tentativa de encobrimento de quem verdadeiramente são.

 

Escrevendo ao jeito tabloide, Martel relata aquilo que as suas várias fontes lhe disseram acerca deste ou daquele prelado ou cardeal do Vaticano. Depois de ter contado estas histórias em mais do que uma página, Martel acrescenta algumas vezes: «Claro que não podemos ter a certeza de que este seja exatamente o caso.» Uma classificação tão estranha levanta uma questão básica da ética jornalística: Por que razão é que ele escreve algo que levanta suspeita ou questiona a integridade de tantas pessoas sem fornecer uma única prova sólida?

 

Ninguém pode duvidar de que há padres homossexuais a trabalhar no Vaticano, tal como há, na mesma proporção, pessoas homossexuais em quase todas as organizações internacionais. Porém, relatar - como Martel o faz, baseado naquilo que outros lhe disseram ou naquilo que ele pensa ter observado ou deduzido durante a investigação - que cerca de 80 porcento do pessoal do Vaticano é gay e insinuar, como ele o faz, que muitos levam vidas duplas, levanta certamente questões de credibilidade e verificação.

 

Martel afirmou que um documento de 300 páginas que inclui fontes, notas e capítulos não publicados estaria disponível online no dia da publicação do livro.

 

Martel afirmou que um documento de 300 páginas que inclui fontes, notas e capítulos não publicados estaria disponível online no dia da publicação do livro.

 

A piada com o número de 80 porcento revela uma das fragilidades fundamentais deste livro de mais de 550 páginas. Será publicado em oito línguas (incluindo o português) em 20 países, a 21 de fevereiro, no exato dia em que o Papa Francisco abre a cimeira no Vaticano sobre a proteção de menores na igreja.

 

Questionado sobre o momento de lançamento do livro, Martel procurou desvalorizar o ganho financeiro de lançar o livro no mesmo dia em que a imprensa internacional se encontra focada no Vaticano. Em vez disso argumentou de que há uma ligação entre o livro e a cimeira, que deve ser procurada na cultura de segredo do Vaticano. Afirmou que, particularmente desde o tempo do Papa Paulo VI, a cultura de segredo do Vaticano escondeu a homossexualidade dos cardeais e dos bispos, mas levou igualmente a que muitos deles protegessem os abusadores de menores porque não queriam que as suas próprias histórias fossem reveladas.

 

Martel apresentou a edição italiana do livro, chamada Sodoma, onde afirmou que durante a pesquisa que fez para o livro, realizou cerca de 1500 entrevistas ao longo de quatro anos com uma variedade de pessoas ligadas ao Vaticano, em 30 países, incluindo os Estados Unidos, Argentina, México, Peru, (Portugal) e a cidade do Vaticano. Revelou que essas entrevistas incluíram 42 cardeais, 52 bispos ou prelados, 27 padres gay, cerca de 45 diplomatas da Santa Sé e embaixadores estrangeiros e 11 Guardas Suíços, bem como prostitutos e antigos funcionários do Vaticano que já não trabalham no ministério e vivem vidas abertamente gay. Ele gravou as entrevistas e foi assessorado por cerca de 80 investigadores, tradutores, jornalistas locais ou «facilitadores» e - talvez o mais significante, dado que se frequentemente se move numa linha fina que arrisca descambar na difamação - cerca de 15 advogados, em diferentes países.

 

Martel disse à imprensa que «somente uma pessoa gay» podia ter escrito este livro, pois somente ele podia «compreender os códigos e o sistema» da vida gay em Roma. Um heterossexual «não podia». Martel nega a existência de um «lobby gay» no vaticano, mas afirma que há uma «ampla maioria silenciosa de homossexuais» que aí vivem em isolamento como «mónadas». Defendeu ainda que que há «uma mentira» no coração do sistema do Vaticano, onde a esmagadora maioria dos padres são homossexuais e afirmou que «ao impor o celibato e a castidade [aos sacerdotes], a igreja tornou-se sociologicamente homo-sexualizada.» Martel também afirma que a sua investigação «revelou» uma subcultura gay no Vaticano e nos episcopados espalhados pelo mundo.

 

O livro de Martel levanta muitas questões, mas produz igualmente uma nuvem tóxica de suspeita sobre muitos cardeais, bispos e padres que será difícil dissipar ou neutralizar. Martel disse aos jornalistas que não pretende atingir pessoas, mas que somente pretende atingir um sistema fraudulento, mas sempre acaba por admitir que «expõe» o falecido cardeal colombiano Lopez Trujillo, citando provas de que ele era um homossexual praticante, bem como o núncio em Paris, arcebispo Luigi Ventura e alguns outros.

 

O autor afirma que o verdadeiro «vilão» no seu livro é o reitor do Colégio dos Cardeais, Angelo Sodano, que serviu como núncio no Chile ao longo de 10 anos, durante a ditadura de Pinochet e mais tarde como secretário de estado de João Paulo II. Ele acusa que o cardeal «sabia tudo acerca dos casos de abuso» no Chile, referentes a Fernando Karadima; no México, referentes a Marcial Maciel; no Perú, acerca de Sodalicio e nos Estados Unidos, acerca do antigo cardeal Theodore McCarrick. Argumenta que o cardeal Sodano «deveria ser investigado pelas autoridades judiciais do Vaticano.»

 

Martel afirma que o Papa João Paulo II era homofóbico e estava rodeado por homossexuais no armário e que emitiam muitas declarações antigay.

 

Martel também aponta em direção ao cardeal polaco Stanislaw Dziwisz, secretário particular do Papa João Paulo II, que, afirma ele, estava profundamente envolvido nestes casos. Alega que o Papa João Paulo II era homofóbico e estava rodeado por homossexuais no armário e que emitiam muitas declarações antigay. Descreve o Papa Bento XVI como um «homofilo reprimido». Contudo, defende o Papa Francisco, quem perceciona rodeado de «borboletas» e preso numa ratoeira, atacado pelas forças da ala conservadora que procuram ligar a homossexualidade à pedofilia. Martel nega veementemente esta ligação, realçando o facto de que muitas raparigas foram igualmente abusadas.

 

O Papa Francisco foi recentemente acusado de encobrir os abusos de McCarrick. Contudo, Martel acusa que, tal como o cardeal Sodano, o cardeal Tarcisio Bertone, o secretário de estado de Bento XVI, sabia igualmente dos abusos de McCarrick. Realçou que o Papa João Paulo II promoveu McCarrick e deu-lhe o chapéu vermelho. Acusou que, para além do Papa Bento XVI, o Papa João Paulo II sabia do comportamento abusivo de McCarrick, tal como o sabia o arcebispo Carlo Maria Viganò, que tem «uma psicologia homofila e pertence à corrente pró-gay que nega.»

 

Neste livro, Martel, que afirma ter sido católico até aos 12 anos e que desde essa idade se sente atraído pelo catolicismo liberal em França, põe em casa a integridade não somente de muitas pessoas, incluindo cardeais, bispos, outros prelados e papas, mas igualmente da igreja.

 

Se gostarmos de bisbilhotice, anedotas, histórias sarcásticas e insinuações sobre pessoas colocadas em altos cargos na igreja, então iremos gostar deste livro. Porém, se gostamos de provas claras, documentação, separação dos factos das suposições ou quaisquer outras formas de provas para apoiarem as alegações ou afirmações feitas no livro, então ficaremos desapontados.

 

Fonte: America - The Jesuit Review