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Associação RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBTQ (Portugal)

Somos católic@s LGBTQ que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

20 de Março, 2021

O Verdadeiro Sínodo Fará o Favor de se Levantar?

Rumos Novos - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

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Em outubro de 2015, participei no Sínodo da Família enquanto representante dos bispos belgas. Escutei os bispos quer no auditório e em espaços mais informais; escutei todos os discursos e tomei parte nas discussões de grupo e na elaboração do rascunho do 'modi' para o decreto final. Como é que me sinto após a publicação em 15 de março de 2021 de um 'responsum' através do qual a Congregação para a Doutrina da Fé publicou uma proibição à bênção dos relacionamentos entre 'pessoas do mesmo sexo? Mal. Sinto-me envergonhado em nome da minha Igreja, como um ministro responsável afirmou ontem.

Contudo, acima de tudo, sinto uma incompreensão intelectual e moral. Quero pedir desculpa a todas e todos a quem este 'responsum' é doloroso e incompreensível: casais homossexuais católicos comprometidos e fiéis; aos pais e avós dos casais homossexuais e aos seus filhos; colaboradores pastorais e acompanhadores de casais homossexuais. Hoje, a dor que elas e eles sentem na Igreja é igualmente a minha dor.

Ao presente 'responsum' falta o cuidado pastoral, a fundamentação científica, a nuance teológica e a precisão ética que se encontraram presentes entre os padres sinodais que aprovaram as conclusões finais. Uma decisão diferente - e um procedimento orientador político - está aqui em causa. Gostaria de mencionar somente três elementos a título de exemplo.

Primeiro, o parágrafo que afirma que no plano de Deus não existe absolutamente qualquer similaridade possível, ou mesmo analogia entre o casamento heterossexual e o homossexual. Conheço casais homossexuais que estão legalmente casados, têm filhos, formam uma família calorosa e estável e, para além disso, participação ativamente na vida paroquial. Alguns estão empregados a tempo inteiro no trabalho pastoral e nas organizações eclesiais. Aprecio muitíssimo os seus contributos. É do interesse de quem negar de que aqui não existe semelhança possível, ou analogia com o casamento heterossexual? Durante o Sínodo, a falta de precisão desta posição foi repetidamente enfatizada.

Segundo, o conceito de 'pecado'. Os últimos parágrafos utilizam a artilharia moral mais pesada. A lógica é clara. Deus não pode condenar o pecado; os casais homossexuais vivem em pecado; portanto a Igreja não pode abençoar as suas relações. É precisamente esta linguagem que os padres sinodais tentaram evitar, quer neste quer noutros casos referidos como situações 'irregulares'. Esta não é a linguagem do 'Amoris Laetitia'.

Porquê? Porque o 'pecado' é uma das categorias teológicas e morais mais difíceis de definir e, portanto, uma das últimas a ser aplicada a pessoas e aos seus relacionamentos. E certamente não a uma categoria geral de pessoas. O que as pessoas querem e são capazes de fazer, neste exato momento das suas vidas, com a melhor das intenções para si próprias e para os outros e outras, face a face com o Deus que amam e que os e as ama, não é um puzzle fácil de resolver. De facto, a teologia clássica católica nunca abordou estas questões nestes termos. O tempora, o mores! ("ó tempos! ó costumes!")

Finalmente, o conceito de 'liturgia'. Enquanto bispo e teólogo, isto ainda me dececiona mais. Os casais homossexuais não são dignos de participar numa oração litúrgica pelo seu relacionamento, ou receber uma bênção à sua relação. De que bastidor ideológico saiu esta afirmação referente à 'verdade do ritual litúrgico'? Este não foi o dinamismo do Sínodo.

Houve discussões frequentes sobre os rituais apropriados e os gestos que pudessem incluir os casais homossexuais, incluindo na esfera litúrgica. Naturalmente, que isto aconteceu com respeito pela distinção teológica e pastoral entre matrimónio e a bênção de um relacionamento. A maioria dos padres sinodais não escolheu um modelo de liturgia a preto e branco ou um modelo do tudo e nada. Pelo contrário, o sínodo ofereceu impulsos sensatos para procurar sensatamente formas híbridas que façam justiça quer à especificidade destas pessoas quer àquela dos seus relacionamentos. A liturgia é a liturgia do povo de Deus e os casais homossexuais também pertencem a esse povo.

Para além disso, este documento atesta o pouco respeito na abordagem da questão da possibilidade de abençoar casais homossexuais baseada na chamada 'sacramentalia', ou a 'Ordem das Bênçãos', que inclui igualmente a bênção de animais, carros e edifícios. Uma abordagem respeitosa ao casamento homossexual somente pode dar-se no seio do contexto mais amplo da 'Ordem para a Celebração do Matrimónio', enquanto variante possível do tema do casamento e da vida familiar, com um reconhecimento honesto quer das semelhanças quer das diferenças. Deus nunca foi parcimonioso ou moralizante quando se trata de conceder as suas bênçãos às pessoas. Ele é nosso Pai. Esta foi a mentalidade teológica e moral da maioria dos padres sinodais.

Resumindo, o atual 'responsum' não contém nenhuma das preocupações substanciais do Sínodo dos Bispos sobre a Família, de 2015, conforme o vivi. Isto constitui uma grande mágoa para os casais homossexuais de fiéis, suas famílias e amigos. Estes casais não se sentem como se a Igreja os tratasse com justiça e verdade. As reações já estão a acontecer. É igualmente uma grande pena para a Igreja.

Apesar das palavras bonitas sobre a sinodalidade, este 'responsum' não é um exemplo da realização conjunta de uma caminhada. O documento mina a credibilidade quer do 'caminho sinodal' que o Papa Francisco tem defendido, quer o ano de trabalho com a Amoris Laetitia que foi anunciado.

O Verdadeiro Sínodo Fará o Favor de se Levantar?

+ Johan Bonny
Bispo de Anutérpia
Participante no Sínodo da Família em 2015
16 de março de 2021

 

Artigo original: Facebook

 

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