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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Os desafios e os dons de um sacerdote homossexual

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A publicação no próximo dia 21 de fevereiro do livro «No Armário do Vaticano», da autoria de Frédéric Martel que, segundo é anunciado, irá constatar o óbvio: o elevado número de sacerdotes de orientação homossexual e, certamente, dar origem a inúmeros debates sobre o estado do sacerdócio. Até agora, há aquelas e aqueles que defendem a aceitação e a misericórdia pelos sacerdotes que são homossexuais, argumentando que estes padres sempre têm tido, e continuaram a ter, muito que dar à igreja. Do outro lado, encontram-se aquelas e aqueles que sentem que, uma vez que a homossexualidade é definida pelo ensinamento da igreja como sendo uma forte tendência orientada para um mal moral intrínseco (Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais, 1986), a presença de padres homossexuais é, no melhor dos casos, um embaraço e, no pior, uma tendência que precisa ser revertida.

 

Torna-se, pois, necessário efetuar uma revisão clara e desapaixonada dos maiores problemas levantados pelo fenómeno dos padres homossexuais no seio da igreja católica. Aquilo que se segue é um sumário dos maiores desafios enfrentados pelos padres homossexuais (e igualmente enfrentados pela igreja em função do seu ministério), bem como dos dons que os padres homossexuais podem trazer à igreja. Esta breve visão geral é o produto de uma revisão da literatura disponível sobre o assunto, bem como de entrevistas com sacerdotes hetero e homossexuais (tanto diocesanos como religiosos).

 

 

Duas notas introdutórias

 

Primeira, uma nota sobre a terminologia: especificamente os termos homossexual e gay. (Considerando que mesmo a terminologia mais básica provou ser base de discórdia dada a sensibilidade do tópico.) Ainda que gay seja obviamente de uso mais contemporâneo, também carrega um grande número de conotações que em nada ajudam para as finalidades deste artigo (p. e. estilo de vida gay, ativismo gay, ...). Em consequência, o termo homossexual, ainda que excessivamente clínico, pode ser mais eficaz quando nos referimos especificamente à orientação sexual de uma pessoa.

 

Segunda, uma nota relacionada ou, melhor, uma suposição - sobre o celibato. Em muitos livros, artigos e discussões sobre a homossexualidade do clero, assume-se que ser-se homossexual significa ipso facto ser-se sexualmente ativo. Porém a palavra homossexual é, mais uma vez, utilizada como a descrição da orientação sexual, enquanto condição, não enquanto indicação de a pessoa ser sexualmente ativa. A menos que seja provado e outra forma, não há nenhuma razão para acreditar que os padres homossexuais são menos propensos a manter os seus votos de celibato do que os heterossexuais. Este artigo partirá do pressuposto de que os padres homossexuais levam os seus votos de celibato tão seriamente como os seus pares heterossexuais.

 

 

Os Desafios do Sacerdote Homossexual

 

Há, conforme o Pe. Cozzens realçou no seu livro, The Changing Face of the Priesthood (A Mudança da Face do Sacerdócio), um elevado número de padres homossexuais e seminaristas nos Estados Unidos. O quão elevado é difícil de determinar. (As estimativas do seu livro vão dos 23 aos 58 porcento, com percentagens ainda mais elevadas entre os padres mais jovens.) O facto de um elevado número de padres partilharem uma característica semelhante significa que a igreja necessita levar em consideração quer os desafios quer os dons oferecidos por este grupo. Não fazer isso seria ignorar um desenvolvimento que podia ter um impacto significativo na vida da igreja católica. Quais são, portanto, alguns dos problemas enfrentados pelos sacerdotes homossexuais? E que desafios são enfrentados pela igreja em resultado da sua presença?

 

Identidade e integridade. O ensinamento atual da igreja sobre a homossexualidade é claro. Os atos homossexuais são intrinsecamente desordenados (Catecismo da Igreja Católica n.º 2357) e mesmo a orientação homossexual é objetivamente desordenada (CIC n.º 2358). Deste modo, ainda que os homossexuais possam sentir no coração o apelo à aceitação, é-lhes mesmo assim difícil confiar somente nos documentos do Vaticano e na linguagem da teologia moral da igreja como forma de aceitarem a sua sexualidade enquanto parte integrante de qualquer pessoa humana, como um aspeto positivo da sua personalidade.

 

Para o padre homossexual, um homem chamado a comunicar o amor de Deus pelo próximo, isto pode revelar-se deveras problemático. Viver a aceitação por parte de Deus por si próprio é um passo importante na vida espiritual de todo o cristão. Seguem-se dois desafios. Primeiro, a dificuldade para um padre esforçando-se para transmitir aceitação e amor por parte da igreja quando uma parte da sua personalidade é rotulada pela igreja como objetivamente desordenada. Segundo, a dificuldade em realizar o trabalho da igreja, particularmente o seu ministério sacramental, sabendo que a igreja o considera orientado para um mal moral intrínseco.

 

Há igualmente a incapacidade inerente de partir da própria experiência pessoal nas homilias, no aconselhamento ou em qualquer outro tipo de trabalho pastoral, como os padres heterossexuais podem facilmente fazer. Muitos padres heterossexuais, por exemplo, falam frequente e comovente sobre o terem deixado uma vida com uma mulher e filhos. Do mesmo modo, muitos padres que estão a trabalhar na recuperação de alcoólicos falam sobre o processo de recuperação libertador como um profundo dom espiritual. Portanto, o primeiro desafio é equilibrar o ensinamento da igreja com a aceitação do eu perfeitamente uno como criado e amado por Deus.

 

Insularidade. Para muitos homossexuais, chegar a aceitar a sua sexualidade é um passo gigantesco na compreensão de si próprios enquanto pessoas amadas por Deus. Um padre entrevistado referiu que ter-se encontrado no que refere à sua sexualidade foi o momento mais importante da sua jornada espiritual enquanto cristão. Para muitos homens homossexuais parte deste processo de aceitação inclui gostar da companhia de outros homossexuais. Porém, para os padres isto pode revelar-se problemático. Como o Pe. Cozzens realçou no seu livro, pode ter como significado que os padres homossexuais escolhem passar o tempo somente com outros padres homossexuais. Para além disso, pode significar que, devido ao facto de se sentirem bem junto de outros homossexuais, um padre homossexual pode escolher passar a maior parte do seu tempo de ministério, por exemplo, com católicas lésbicas e católicos gays. O perigo reside no desenvolvimento de uma preferência somente por apostolados direcionados para gays e lésbicas, em vez do desenvolvimento de um ministério sacerdotal aberto a todos os tipos de pessoas a partir de uma ampla variedade de passados.

 

Outro perigo é que, nalguns locais, grupos de padres homossexuais possam desenvolver uma rede de amizades mais próximas entre si que, consciente ou inconscientemente, excluam os padres heterossexuais. Certamente que desenvolver uma forte identidade comunitária é normal para qualquer grupo com afinidades, particularmente um no qual os seus membros enfrentaram a perseguição e a rejeição da sociedade. Contudo, levado ao extremo, uma insularidade pode fazer com que os padres heterossexuais se sintam marginalizados nas suas próprias reitorias e comunidades religiosas. Um padre heterossexual entrevistado queixava-se acerca da atmosfera de uma comunidade religiosa na qual vivia, onde se sentia posto de lado pelo resto da comunidade. Quando exprimiu os seus sentimentos ao resto da comunidade, foi acusado de intolerância e homofobia. Acabou por se decidir a mudar para outra residência. Tal insularidade pode igualmente desencorajar as vocações heterossexuais de se sentirem bem-vindas na reitorias, seminários e comunidades religiosas.

 

Abordando a subcultura gay. Aqui enfrentamos um tópico difícil. Por um lado, foge-se dos estereótipos (p. e.: todos os homens homossexuais são...). Por outro lado, muitos homens gay afirmam que a comunidade gay tem uma ampla variedade de características distintas. Estas características ajudam a defini-la como uma subcultura distinta dentro da cultura social mais vasta, na qual os homens gay sentem orgulho. (Livros, revistas e entrevistas a padres homossexuais apontam igualmente traços similares.) Alguns dos aspetos desta subcultura gay podem ser saudáveis para o padre homossexual, como por exemplo o aceitar-se como um membro valioso da sociedade, ou o realçar da sensibilidade e da comunidade. Outros são menos assim. Por exemplo, Michelangelo Signorile, um autor gay, escreveu sobre o que o ele classifica como aspetismo, a tendência que alguns homens gay têm de julgar os outros somente tendo como base a sua aparência física. Obviamente que isto não ajuda em nada um ministro da igreja.

 

Uma analogia pode ser útil. Se uma pessoa é um padre nascido e criado na América, essa pessoa pode sentir orgulho nalguns valores tipicamente americanos (autoconfiança, otimismo, uma visão democrática do mundo) sem ter de subscrever os valores menos saudáveis (materialismo, individualismo). Resumindo, como é que um padre homossexual resiste à importação por atacado daqueles valores da subcultura gay que podem ser prejudiciais na vida sacerdotal? Dito de uma forma mais positiva, que valores e características da subcultura gay são saudáveis para um padre e quais é que não são?

 

Enfrentar a homofobia. Apesar dos avanços feitos em termos daquilo que o catecismo pede, ou seja, a aceitação de gays e lésbicas com respeito, compaixão e sensibilidade, a cultura americana é amplamente hostil para com os homossexuais. Pode ainda ser difícil para os homossexuais aceitarem a sua sexualidade como um dom, devido à existência de preconceitos culturais em relação à sua orientação. A violência é recorrente; e espancamento e assassinato do jovem Matthew Shepard, no Wyoming (EUA) é um caso que merece referência.

 

Portanto, qualquer padre que seja honesto para com os paroquianos ou os seus superiores diocesanos ou religiosos acerca da sua sexualidade enfrenta a forte possibilidade de reações negativas. Embora possa ser saudado com respeito, compaixão e delicadeza, pode igualmente ser acolhido com ódio e rejeição, particularmente por parte daquelas e daqueles que erradamente assumem que todos os padres homossexuais são sexualmente ativos ou, pior ainda, aquelas e aqueles que erradamente associam a homossexualidade à pedofilia. Os superiores podem ficar preocupados com o escândalo. (A dificuldade de um padre homossexual responder de forma pública a situações de homofobia é igualmente óbvia.) Para além disto, a igreja institucional, através de uma grande variedade de meios, reforça a regra não escrita de que um padre homossexual nunca deve falar publicamente sobre a sua orientação. Todos estes fatores estão na origem do véu de silêncio que encobre o tema do padre homossexual.

 

 

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Os Dons do Padre Homossexual

 

A teologia tradicional católica conforme sumarizado no catecismo (n.º 1578) afirma que os homens são chamados ao sacerdócio por Deus. Portanto, apesar das afirmações de que os padres homossexuais são quer um escândalo quer um embaraço, a crença católica é a de que todos os homens chamados às ordens religiosas respondem a um chamamento divino. (Como um aparte, é provavelmente sem qualquer surpresa de que numa igreja que impõe o celibato aos homossexuais, alguns homens gay escolham a vida celibatária de um padre.) Alguns argumentaram de que a ordenação de homossexuais é representa de alguma forma um erro da igreja. Porém, os padres homossexuais, tal como os heterossexuais, são ordenados através da autoridade divina da igreja, que tem essa responsabilidade e caráter espiritual (n.º 1578) e, de acordo com a teologia tradicional católica, que imprime no padre um caráter espiritual indelével (n.º 1582).

 

Portanto, podemos afirmar que Deus chamou, e continua a chamar, os homossexuais a servirem como padres na igreja e que a igreja confirma esta chamada através da ordenação. A questão não é se Deus chama os homens homossexuais ao sacerdócio, mas porquê. Teologicamente, como é que podemos entender estes sinais dos tempos?

 

A escola do sofrimento. A vasta maioria dos homossexuais nos Estados Unidos estão familizarizados com o sofrimento que vem do facto de serem uma minoria incompreendida e frequentemente perseguida. Isto começa no início da adolescência e pode continuar para o resto da vida. Os homossexuais são frequentemente alvo de preconceito, ridicularizados, rejeitados pelas próprias famílias e, algumas vezes, violência. Portanto, aqui temos homens que compreendem o sofrimento, o estigma e a frustração sobre os mesmos tipos de experiências que a teologia cristã ensina poderem colocar a pessoa mais perto da companhia do Cristo que sofre. Para usar as palavras escutadas durante a Quaresma, o homossexual é frequentemente desprezado e rejeitado pelo próximo, um homem do sofrimento... um de quem os outros escondem as suas faces (Is 53, 3).

 

Ser educado nesta experiência única de sofrimento pode resultar num profundo sentimento de misericórdia e dientificação com os mais marginalizados na sociedade: os doentes, os que estão sós, os refugiados, os materialmente pobres, os proscritos, o mais pequeno dos meus irmãos e irmãs (Mt 25). Um padre homossexual entrevistado, que trabalhava com imigrantes na sua paróquia, disse que a sua experiência pessoal ajudou-o a melhor compreender a experiência dos imigrantes de serem tratados como proscritos no seu novo país. Ele sentiu que o seu passado tinha ampliado a sua compaixão e o tinha ajudado a ministrar a um grupo de pessoas com as quais, pelo menos inicialmente, tinha pouco em comum. Do mesmo modo, as experiências de marginalização significam que o padre homossexual podia ser naturalmente sensível aos outros que se sentem marginalizados na igreja, tal como é o caso dos católicos divorciados e recasados, para referir apenas um exemplo. Poderia Deus estar a chamar os homossexuais para servirem como ministros ordenados precisamente por esta razão? Não poderiam eles exemplificar de forma poderosa a imagem de servo sofredor de Cristo?

 

Vida espiritual. Para o homossexual, o caminho para viver o amor e a aceitação pelos outros, para encontrar a autoaceitação e para descobrir o amor de Deus por toda a pessoa pode ser algo de árduo. Devido ao isolamento que muito homossexuais sentem, particularmente no início da adolescência, estes são levados a desenvolver vidas interiores profundas. A solidão e anomia de se crescer homossexual (particularmente no passado) força muitos homossexuais a se voltarem para dentro de si mesmos, para um nível de autocompreensão e consciência que é o fundamento de uma espiritualidade saudável. Será possível que numa era de aumento do interesse na espiritualidade Deus chama estes homens, particularmente, para conduzirem as pessoas para mais perto de Deus, em oração? Para além disso, será que a sua experiência de autoaceitação, conquistada a ferros, os ajuda a melhor aconselharem aquelas e aqueles que procuram viver o amor e a aceitação de Deus na sua vida?

 

Criatividade. Será um esterotipo afirmar que muitos homens homossexuais se inclinam mais para a criatividaded? Sim, embora não seja provavelmente um esterotipo pejorativo ou negativo. Enquanto os homossexuais trabalham agora em todos os tipos de profissões, devido a uma variedade de razões muitos têm historicamente gravitado em torno de profissões que realçam a criatividade, tal como acontece nas belas-artes e no teatro. Como John Boswell sublinhou no seu livro Cristianismo, Tolerância Social e Homossexualidade (1980), a igreja católica tem durante séculos dado aos padres homossexuais a oportunidade de usarem os seus dons únicos ao serviço da igreja. Nesta era pós-Vaticano II de interesse na liturgia, na arte de pregar, no lugar da arte, da dança e da música na igreja e naquilo que Andrew Greeley chamou de apologética da beleza, será que Deus pode estar a chamar os padres homossexuais, de uma modo especial, para contribuirem com os seus próprios dons nestas áreas?

 

 

Honestidade e Caridade

 

Olhando para a alta incidência de padres homossexuais nos Estados Unidos, o Pe. Cozzens afirma sucintamente: «Claramente que é uma questão.» Obviamente, não é uma situação que possa ser negada ou ignorada. E aquilo que é pedido não é as polémicas a quente e algumas vezes desinformadas que caracterizaram a discussão, mas antes uma conversa que admite quer os desafios ocasionados pelos dons quer os dons oferecidos pelos padres homossexuais, homens que procuram servir Deus e a igreja com todo o seu ser. Somente a honestidade e a caridade ajudarão os católicos a melhor apreciarem a situação atual e permitir à igreja discernir os sussuros do Espírito Santo.

 

Fonte: America - The Jesuit Review