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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

«Os gays com deficiência também jogam, vão a festas e apaixonam-se»

Foto: Óscar Ibm

 

Gustavo Martínez tem 26anos, vive em San Luis Potosí, México, e é parte de uma minoria entre as minorias: nasceu com uma condição congénita denominada «osteogénese imperfeita», vulgarmente conhecida como doença dos «ossos de vidro», pelo que se desloca numa cadeira de rodas desde os 6 anos. Aos vinte dias após o seu nascimento sofreu uma fratura e os médicos prognosticaram-lhe uma morte inevitável nos primeiros meses de vida.

 

A osteogénese imperfeita, ou osteogenia imperfeita, é uma doença que debilita os ossos até ao ponto de que estes se partem com grande facilidade, ou sem nenhum motivo. Para além disso, em algumas pessoas pode também causar músculos débeis — o que impossibilita a quem padece da doença a realização de atividades quotidianas —, graus diversos de surdez e dentes quebradiços.

 

Gustavo apresenta uma variante de osteogénese imperfeita na qual os genes de ambos os progenitores falharam e por isso o seu padecimento manifestou-se desde muito cedo. Antes de ser diagnosticado, a sua mãe esteve sob suspeita de maus tratos infantis, pois era muitíssimo raro que um bebé com uns quantos dias de vida apresentasse uma fratura. Imediatamente as análises revelaram a presença da «doença dos ossos de vidro» e a sua mãe foi ilibada da suspeita.

 

Ao ver-se impossibilitado de caminhar, Gustavo não teve uma infância típica, mas esta também não foi uma telenovela trágica, como alguns imaginariam. Ele mesmo recorda-se como um diabinho, que andava por todo o lado com a sua cadeira, ou arrastando-se com o ímpeto que a idade lhe dava, sem dar demasiada importância às fraturas que a sua atividade intensa poderia provocar.

 

Mais tarde chegou a participar em jogos de basquetebol e «cachibol» para pessoas que se deslocam em cadeiras de rodas. Ainda que houvesse atividades nas quais não podia participar de forma ativa, também aprendeu a divertir-se vendo as outras crianças jogar. Longe de se sentir excluído desfrutava desses momentos. Encontrou no papel de espectador uma forma de se integrar no mundo.

 

Porém, foi no seu despertar sexual, ao chegar à puberdade, quando um conflito interno começou a apoderar-se dele. Ainda que tivesse sobrevivido a mais de sessenta fraturas antes dos 12 anos e tivesse tido de superar momentos difíceis, teria que superar uma prova adicional: ser um homem atraído por outros homens. Por isso, quando conheci um pouco da sua história fiquei com um enorme desejo de o entrevistar. Soube que ele era a pessoa certa para falar de temas que tocam muito pouco quando se aborda o tema das pessoas com deficiência: a vida sexual, o enamoramento e a loucura.

Foto: Óscar Ibm

 

Sentiste a discriminação típica do Grindr? Porque nos perfis há cada vez mais frases como «nada de feios», «nada de gordos», «somente machos» e um grande etc... Sim, (risos)! Claro que senti, mas não há outra maneira senão aprender a lidar com o modus operandi dessas aplicações. Também por isso já as deixei um pouco de lado e elas não são o meu forte. Porque, para além disso, nas apps passa-se muito algo que até me faz rir, quando as pessoas me dizem: «Ei, mas somente vamos ter relações sexuais; É algo de uma só vez, não te apaixones». Às vezes, para ver o que respondem escrevo: «Sim, aquele que vai acabar bem enamorado és tu». Muitas pessoas acreditam que por ter esta incapacidade estou eternamente necessitado de afeto. Que cansaço!

 

Pois bem, também não és um insensível, suponho que te apaixonas como toda a gente, não é verdade? Claro. Imagina que a primeira vez que me apaixonei por outro homem tinha 17 anos e ele nunca o soube porque nunca me atrevi a dizer-lhe. Mas aos 19 anos tive a minha primeira relação e estava tão emocionado que até saí do armário perante os meus pais e disse-lhes: «Sou gay e para além disso tenho noivo!» E não foi nada difícil com os meus pais, foi mais difícil aceitar-me a mim mesmo como gay portador de deficiência.

 

E a par deste processo também ias à universidade. Que estudaste? Estudei Técnicas de Mercado Internacional e terminei em 2013. Mas antes disso também me envolvi em trabalhos de ativismo e direitos humanos. A minha incapacidade nunca me impediu de voar. Pago as minhas contas, sou uma pessoa independente.

 

Como é ir a um bar sendo uma pessoa portadora de deficiência? Homem, há que mudar essa mentalidade. Não somos crianças, as pessoas portadoras de deficiência também gostam de se divertir. Eu, inclusive, tenho a fama de que sou a destruição em pessoa, porque se já sou intenso na minha vida do dia a dia, agora imagina-me na farra. Não é que fique sempre embriagado, mas divirto-me muito. Qualquer pessoa que me na maluquice há de pensar que estou bêbado, mas não.

 

E aí não houve discriminação? Em coisas bem mais subtis. Por exemplo, quando vou a um bar com um amigo, o meu amigo converte-se no «salvador». Dizem-lhe coisas do tipo como é porreiro que vá comigo; que é a melhor pessoa do mundo. Também não fata o bêbado típico que levou uma tampa e se aproxima de mim no final porque pensa que comigo vai acontecer algo porque me vê de cadeira de rodas.

 

E no bar nunca te colocaram problemas para entrares? É que eu nem pergunto, entro e já está. Ganhando como sempre. Assim como há o bar que me ignora e me deixam passar como o fariam a qualquer outra pessoa, também há os que se desviam e até abrem caminho para que passe. Porém, pessoalmente prefiro que me ignorem. Durante anos houve bares que não me cobravam as entradas e eu queria que cobrassem! Eu não quero favoritismos devido à minha condição e se quero um tratamento igual tenho que dar o exemplo.

 

Qual é a mensagem que queres deixar com esta entrevista? Que todos se atrevam a ser quem são apesar do que os rodeia. Se isso incomoda os outros, «temos pena». Fiquem sabendo que é a primeira vez que falo da minha vida privada desta forma e o objetivo não é ser o centro de atenção, mas antes falar sobre uma realidade da qual se fala muito pouco e se mais pessoas se atrevessem a falar disso, seria muito mais comum. É como derrubar um segundo armário.

 

Saibam que existe a diversidade dentro da diversidade, que as pessoas portadoras de deficiência também se divertem, sentem desejo, têm ereções e desfrutamos da nossa sexualidade. Que nós também saímos, nos divertimos e nos apaixonamos. E ainda que alguns se incomodem com isso — talvez até a minha família se sinta incomodada pelo que leu aqui —, isso não importa. Eu sei quem sou e oxalá isto sirva para que se comece a falar sobre estes temas.

 

Fonte: Vice