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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Para a Igreja Católica, Tudo o que Sou é Pecado

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O Papa Francisco não pode tirar a dignidade aos católicos LGBT.

 

O popular Papa Francisco alterou finalmente as suas palavras fazendo-as corresponder à sua inação. O pontífice do «Quem sou eu para julgar?» exprimiu agora uma preocupação e uma reserva sérias acerca do lugar dos gays no sacerdócio. Com aquelas cinco palavras o Papa deu tanta esperança à comunidade gay: significava que o Papa e a Igreja aceitavam os gays. Porém, o Papa enganou toda a gente. Com as suas últimas observações, contidas no próximo livro de Fernando de Prado «A Força da Vocação», o Papa realça a eventual vida dupla dos sacerdotes gays, mas quando fala acerca da «força das vocações» não é capaz de ver a tendência nas vidas duplas dos sacerdotes pederastas ou heterossexuais.

 

Ao mesmo tempo, o Papa Francisco nada diz acerca da força das vocações das mulheres em exercerem o ministério. O caminho que segue já está repisado e é aquele que diz a 1,2 biliões de católicos alguma coisa acerca da natureza do seu papado surgido do nada: as suas palavras e ações curvam-se agora em direção às políticas dos prelados conservadores (também conhecidos como o clero das altas fileiras).

 

Desde a minha partida da Sociedade de Jesus, nenhum jesuíta abertamente gay foi ordenado.

 

O que mais me magoa é que desde a minha saída da Sociedade de Jesus, a Igreja Católica não se moveu um milímetro na forma como celebrar e honrar o ministério, os relacionamentos ou a parentalidade dos católicos gays e lésbicas. Mesmo agora os seminaristas gays no armário continuam a ser ordenados por dioceses e instituições religiosas por todo o mundo. Se revelam a sua homossexualidade, são convidados a sair do seminário.

 

Conheci a homofobia na igreja, incluindo a suposição de que os sacerdotes gay enganam quanto aos seus votos. Poderia ter ficado como sacerdote desde que tivesse feito de conta que era heterossexual.

 

Desde que o Papa Francisco proferiu as suas mais famosas cinco palavras «Quem sou eu para julgar?», acerca dos sacerdotes gay, a Igreja Católica ficou mais desconcertante, enviando para o exterior tantos sinais contraditórios que a maioria dos católicos estão totalmente confusos sobre em que ponto está verdadeiramente a Igreja em relação aos gays católicos. Porém, eu sei a minha teologia: o ensinamento da igreja sobre a homossexualidade não se alterou. Os gays encaixam na rubrica dos desorientados, dos mórbidos e dos imorais. Quando o Papa Francisco afirmou que não há inferno, ele não poderia saber que a minha própria família católica me tinha informado que eu iria arder no inferno, quando tentei assumir-me como um jovem católico gay em 1993.

 

Há várias razões para a Igreja Católica não ter avançado na doutrina referente à homossexualidade.

 

Primeiro, para abraçar os gays, para celebrar o seu ministério, relacionamentos e parentalidade, a Igreja católica teria de (a) ver o Papa falar ex cathedra (com a total autoridade do cargo) sobre este assunto, desta forma determinando um ensinamento da Igreja de que os casais do mesmo sexo podiam casar, ou (b) um Concílio do Vaticano teria de ser convocado e onde um conjunto de prelados homens podiam escrever sobre o tema da homossexualidade no mundo da igreja do século XXI e fazerem depois com que o Papa aprovasse o documento.

 

Segundo, os bispos e os cardeais não conseguem resolver dilemas morais bem menos desafiantes, por exemplo, a Igreja não consegue desenvolver uma nova teologia Eucarística que permita aos católicos divorciados receberem a comunhão, o corpo e sangue de Jesus. Se a igreja não consegue resolver este assunto, como é que pode avançar para a resolução de assuntos teologicamente mais prementes como permitir que os gays e as lésbicas tenham relações sexuais ou que participem no sacramento do matrimónio?

 

A Igreja católica ainda acredita que fala a verdade sobre a sexualidade humana. Isto é, apesar da «construção de pontes» dos católicos progressistas, a igreja não se equivoca: os gays que agem de acordo com a sua orientação sexual cometem um pecado sério e mortal e ao agirem assim afastam-se a si próprios da graça em direção à escuridão. Eles são os únicos a quem é pedido que façam mais, isto é, que sejam celibatários. A igreja vê-se a si mesma como o caminho para Jesus e, assim, para Deus. Em consequência, condena a homossexualidade porque esta é contra a lei natural.

 

No mundo secular ser-se gay é aceite, não como algo que está na moda, pois ninguém usa a sua sexualidade como um casaco de pele ou uns sapatos Prada (os últimos tão do agrado do Papa Bento XVI), mas antes como algo que intrinsecamente faz parte de si. No mundo secular sou uma pessoa boa e de confiança, nunca um pecador, mas no mundo da Igreja Católica tudo aquilo que sou é pecado - nem mesmo as célebres cinco palavras do Papa me poderiam reconciliar, de acordo com o dogma da Igreja Católica.

 

Sou um homem gay orgulhoso que representa Jesus. Sou inflexivelmente contrário a levar uma vida dupla, como alguns temeram que levasse devido a como Deus me fez à sua imagem e semelhança. Para a igreja, eu não poderia representar integralmente Jesus enquanto homem gay, mas não renunciarei a quem sou por ninguém, por nenhuma ordem religiosa or por nenhuma instituição. Entristece-me que a Igreja Católica veja os gays como fracos e que as suas vocações são inúteis. E se os sacerdotes gays dissessem finalmente «basta»? Quantas igrejas fechariam? Quantos ministérios seriam cancelados? A igreja e o Papa não fazem a mais pequena ideia quantos dos seus padres, pastores, bispos, cardeais, abades e papas são gays, a maioria deles vivendo vidas duplas de medo e pavor de que alguém descubra que são gays.

 

A força da minha vocação levou-me para longe da igreja, mas para minha maravilhosa surpresa, sou mais padre do que nunca!

 

Autor: Benjamin Brenkert
Tradução (do inglês) e adaptação: José Leote (Rumos Novos)