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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Pe. James Martin: Como as paróquias podem acolher @s católic@s LGBT

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Um dos mais recentes desafios para as paróquias católicas é como acolher os paroquianos LGBT, bem como as famílias com membros LGBT. Porém, esse desafio é igualmente onde a graça abunda porque @s católic@s LGBT têm-se sentido excluídos da igreja durante tanto tempo que qualquer experiência de acolhimento pode ser uma mudança de vida - um momento de cura que @s pode inspirar a novamente irem à Missa, faze-l@s regressar aos caminhos da fé e mesmo ajudá-l@s a voltar a acreditar em Deus.

 

Ao longo dos últimos anos, tenho ouvido as histórias mais assustadoras da boca d@s católic@s LGBT a quem foi feito sentir que não eram bem-vindos nas paróquias. Um gay autista de 30 anos que «saiu do armário» para a família e que não estava em qualquer tipo de relacionamento disse-me que um elemento da pastoral lhe disse que ele já não podia receber a comunhão na igreja. Porquê? Porque já o dizer que era gay constituía um escândalo.

 

Porém, a crueldade não termina à porta da igreja. No ano passado uma mulher contactou-me para me perguntar se conhecida alguns «padres misericordiosos» na sua arquidiocese. Porquê? Ela era enfermeira num hospital onde um doente católico estava a morrer. Contudo, o padre da paróquia local designado para o hospício recusava dar-lhe a extrema unção - porque ele era gay.

 

É surpreendente que a maioria d@s católic@s LGBT se sintam como leprosos na igreja?

 

É surpreendente que a maioria d@s católic@s LGBT se sintam como leprosos na igreja?

 

O mesmo é verdade para as famílias. A mãe de um adolescente gay disse-me que o filho tinha decidido regressar à igreja após anos a sentir que a igreja o odiava. Depois de muita discussão, ele resolveu regressar no Domingo de Páscoa. A mãe estava cheia de alegria. Quando a Missa começou ela não se continha em si por ter o filho a seu lado. Porém, depois de o sacerdote ter proclamado a Ressurreição de Cristo, adivinhem o que ele continuou a pregar? Os males da homossexualidade. O filho levantou-se e saiu da igreja e a mãe permaneceu sentada no banco da igreja e chorou.

 

Contudo, também há histórias de graça na nossa igreja. No ano passado, um estudante universitário disse-me que a primeira pessoa para quem tinha «saído do armário» tinha sido um padre. A primeira coisa que o padre lhe disse foi: «Deus ama-te e a igreja aceita-te.» O jovem disse-me: «Aquilo, literalmente, salvou-me a vida.» De facto, deveríamos alegrarmo-nos com o facto de cada vez mais paróquias católicas serem locais onde @s católic@s se sentem em casa, graças quer ao pessoal paroquial quer a programas mais formalizados.

 

A minha comunidade de jesuítas em Nova Iorque fica perto de uma igreja chamada St. Paul the Apostle (São Paulo o Apóstolo), que possui um dos mais ativos programas de ajuda a pessoas LGBT do mundo. O ministério chama-se «Out at St. Paul» (NT: que em tradução livre ficaria «Saíd@s do Armário em São Paulo») e apoia retiros, grupos de estudos bíblicos, palestras e eventos sociais para a ampla comunidade LGBT da paróquia. Todos os domingos na Missa das 17h15, no momento dos anúncios paroquiais, uma pessoa LGBT sobe ao púlpito para dizer: «Olá! Eu sou o Jason ou a Xorie ou a Marianne e sou membro do Out at St. Paul. Se és lésbica, gay, bissexual ou transgénero queremos que te sintas acolhido. Partilho agora alguns acontecimentos a decorreram na próxima semana.» Acabei de saber que dois membros desse grupo vão entrar em ordens religiosas, este ano.

 

Infelizmente, a maior parte da vida espiritual d@s católic@s LGBT depende do local onde calha viverem

 

Infelizmente, a maior parte da vida espiritual d@s católic@s LGBT depende do local onde calha viverem. Se se é uma pessoa gay, lésbica, bissexual ou transgénero tentando dar sentido ao seu relacionamento com Deus e com a igreja ou se se é progenitor de uma pessoa LGBT e se se vive numa grande cidade com pastores de mente aberta, tem-se sorte. Porém, se se vive num local de mente menos aberta ou se o pastor é homofóbico, quer pela calada quer abertamente, a sorte acaba-se. E o modo como @s católic@s são acolhidos, ou não, nas suas paróquias influencia fortemente a sua perceção não somente da igreja, mas igualmente da sua fé e em Deus.

 

É o verdadeiro escândalo. Por que deveria a fé de depender do local onde se vive? É isso que Deus deseja para a igreja? Pretendeu Jesus que as pessoas na Betânia sentissem menos o amor de Deus do que aquelas que aconteceu viverem em Betsaida? Pretendeu Jesus que uma mulher em Jericó se sentisse menos amada do que uma mulher em Jerusalém?

 

Portanto, o que é que ajuda uma paróquia a ser acolhedora e respeitadora? Como podem padres e diáconos, irmãs e irmãos, professores de educação moral e religiosa católica, leigos responsáveis pela pastoral e tod@s @s paroquin@s serem lares para @s católic@s LGBT e respetivas famílias?

 

As observações seguintes são baseadas não somente em conversas com pessoas LGBT, mas igualmente na experiência de ministros LGBT e grupos de ajuda que consultei a propósito desta palestra. Perguntei-lhes: Quais são as coisas mais importantes para as paróquias saberem e fazerem?

 

Parece óbvio, mas as paróquias precisam de se lembrar que as pessoas LGBT e as respetivas famílias são batizadas

 

Portanto, gostaria de abordar três áreas. Primeira, quais são algumas ideias fundamentais para as paróquias? Segunda, o que pode uma paróquia fazer para ser mais acolhedora e respeitadora? Finalmente, o que é que o Evangelho nos pode dizer sobre este tipo de ministério? Vamos começar com seis ideias fundamentais:

 

1) El@s são católic@s. Isso soa óbvio, mas as paróquias precisam de se lembrar que as pessoas LGBT e respetivas famílias são católic@s batizados. Fazem tanto parte da igreja como o Papa Francisco, o bispo local ou o pastor. Não é uma questão de @s tornar católic@s. El@s já o são. Portanto, a coisa mais importante que podemos fazer pel@s católic@s LGBT é acolhe-l@s ao que já é a sua igreja. E é preciso não esquecer: só pelo facto de permanecerem na igreja, as pessoas já suportaram frequentemente anos de rejeição. O nosso acolhimento deve refletir isso, pelo que deveria ser, citando o Evangelho de Lucas, «uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante.»

 

2) El@s não escolhem a sua orientação. Infelizmente, muitas pessoas ainda acreditam que as pessoas escolhem a sua orientação sexual, apesar do testemunho de quase tod@s @s psiquiatras e biólogos - e, mais importante ainda, as experiências vividas pelas pessoas LGBT. Não se escolhe a orientação ou identidade de género, assim como não se escolhe ser canhoto. Não é uma escolha. E não é uma adição. Assim, não é um pecado ser-se simplesmente LGBT. Menos ainda, não é algo para «culpar» alguém, como os progenitores.

 

3) El@s foram frequentemente tratad@s como leproso@s pela igreja. Nunca se deve subestimar a dor que as pessoas LGBT têm vivido - não somente às mãos da igreja, mas igualmente da sociedade no seu todo. Algumas estatísticas podem ajudar: Nos Estados Unidos, @s jovens gay, lésbicas e bissexuais têm cinco vezes maior probabilidade de tentativas de suicídio do que @s seus contrapartes héteroscontrapartes héteros. Quarenta por cento das pessoas transgénero nos Estados Unidos tentam o suicídio. Entre as pessoas jovens LGBT nos Estados Unidos, 57 por cento sentem-se insegurança devido à sua orientação. Igualmente, um estudo mostra que quanto mais religiosa é a família de onde são oriundos, maior a probabilidade de tentarem o suicídio. E uma importante razão para @s jovens LGBT serem sem-abrigo é o facto de serem oriundos de famílias que @s rejeitam por razões religiosas. Portanto, as paróquias precisam de se aperceber das consequências da estigmatização das pessoas LGBT.

 

Nunca se deve subestimar a dor que as pessoas LGBT têm vivido - não somente às mãos da igreja, mas igualmente da sociedade no seu todo

 

A maioria d@s católic@s LGBT foi profundamente magoad@ pela igreja. Podem ter sido alvos de troça, insultad@s, excluíd@s, condenad@s ou apontad@s com críticas, quer em privado quer a partir do púlpito. Podem nunca ter escutado o termo «gay» ou «lésbica» dito de uma forma positiva ou mesmo neutra. E mesmo quando os comentários não tinham origem no enquadramento da paróquia, podem ter ouvido outr@s responsáveis católic@s fazerem comentários homofóbicos. Desde os seus primeiros dias como católic@s que frequentemente lhes é feito sentir que são um erro. Temem a rejeição, o julgamento e a condenação por parte da igreja. De facto, estes podem ser as únicas coisas que esperam da igreja. Isto leva-@s frequentemente a que se autoexcluam da igreja.

 

Os progenitores de crianças LGBT enfrentam a mesma dor. Há mesmo um ditado: «Quando uma criança sai do armário, os progenitores vão para o armário.» Para os progenitores pode ser confuso, perturbador e embaraçoso aceitar a realidade da orientação sexual ou de género d@s filh@s.  Podem ter vergonha em frente de familiares e ami@s. Ter um@ filh@ que saia do armário ou diga que é transgénero pode fazer com que o progenitor sinta que de alguma forma falhou, mas que serão isolados, julgados e excluídos da igreja. Algumas vezes sentem que têm de escolher entre @ filh@ e Deus. Os progenitores preocupam-se igualmente que @ filh@ abandone a igreja que é encarada como @s rejeitando. Como resultado, as paróquias têm de deixar progenitores e famílias aperceberem-se que ainda são bem-vindos, que nada têm a temer de parte da igreja e que a igreja é a sua casa.

 

4) El@s trazem dons à igreja. Tal como qualquer outro grupo, as pessoas LGBT trazem dons especiais à igreja. Neste momento, normalmente é errado procedermos a generalizações, mas para um grupo que tem sido visto na igreja quase exclusivamente sob uma perspetiva negativa, é importante considerar os muitos dons do grupo. Para começar, porque têm sido tão marginalizados, muitas pessoas LGBT sentem frequentemente uma misericórdia natural por aqueles que se encontram nas margens. A sua misericórdia é um dom. Frequentemente perdoam aos pastores e padres que os trataram como lixo. O seu perdão é um dom. Perseveram enquanto católic@s face a anos de rejeição. A sua perseverança é um dom.

 

De facto, não há muito tempo algumas paróquias americanas despediram pessoas LGBT depois destas se terem legalmente casado. De cada vez que ouço estas histórias, elas são sempre sobre o professor@, trabalhador@ na paróquia ou responsável pelo coro «mais querid@». Questiono-me sempre porque eram os «mais querid@s.» Depois apercebo-me do porquê: as pessoas LGBT que trabalham para a igreja têm de realmente lá querer estar, considerando o modo como são tratadas. Mantêm os seus ministérios apesar da rejeição que vivem. O mesmo acontece com @s paroquian@s LGBT: El@s têm de tomar uma decisão consciente de permanecer numa igreja - perseverar. Portanto, quando pensamos sobre os seus dons, podemos ter a mesma reação que Jesus teve com o centurião romano: espanto com a sua fé.

 

Tal como qualquer outro grupo, as pessoas LGBT trazem dons especiais à igreja

 

5) El@s anseiam por conhecer Deus. Tal como muit@s católic@s, muitas pessoas LGBT lutam em relação a vários aspetos do ensinamento da igreja - por exemplo, expressões como «intrinsecamente desordenado.» Ao mesmo tempo, muitas destas pessoas não estão tão centradas naquelas partes da tradição como as pessoas pensam. Muitas destas pessoas querem algo bem mais simples: Querem viver o amor do Pai através da comunidade. Querem conhecer Jesus Cristo na Eucaristia. Querem viver o Espírito Santo nos sacramentos. Querem escutar boa homilias, cantar boa música e sentir-se parte de uma comunidade de fé. Tratem-nos desse modo - não como contestatários, mas como paroquianos. Ajudem as pessoas LGBT e respetivas famílias a realizarem os seus desejos mais profundos: conhecer Deus.

 

6) El@s são amad@s por Deus. Deus ama-@s - portanto também nós o deveríamos fazer. E não me refiro a um amor mesquinho, relutante, crítico, condicional e a meio gás. Refiro-me a um amor autêntico. E o que significa amor autêntico? O mesmo que significa para toda a gente: conhecer estas pessoas na complexidade das suas vidas, celebrar com elas quando a vida é doce, sofrer com elas quando a vida é amarga, como qualquer amig@ faria. Contudo, digo a tod@s: amai estas pessoas tal como Jesus amou as pessoas nas margens: de forma extravagante.

 

Com estas ideias em mente, como pode uma paróquia ser mais acolhedora? Como podemos tratar as pessoas LGBT com as virtudes que o Catecismo recomenda: «respeito, compaixão e delicadeza»? Permitam-me que sugira 10 coisas. Claro que estas 10 sugestões precisar de ser adequadas à realidade de cada paróquia. Não há nenhuma onde todas encaixem. Cada paróquia deve desenvolver o seu próprio modelo.

 

1) Examinem as vossas próprias atitudes em relação às pessoas LGBT e respetivas famílias. Acreditam que alguém é pecador somente porque ela é lésbica ou mais inclinada a pecar do que uma mulher hétero? Consideram os progenitores «responsáveis» pela orientação sexual de um adolescente gay? Pensam que uma pessoa é transgénera somente porque é «moda»? Aqui deixo outra questão: se nenhuma ou somente poucas pessoas LGBT se deram a conhecer perante vós, porque motivo isso acontecerá?

 

Deus ama as pessoas LGBT- portanto também nós o deveríamos fazer. E não me refiro a um amor mesquinho, relutante, crítico

 

Da mesma forma, discriminamos nós no nosso coração em relação a estas pessoas? Por exemplo, avaliamos a comunidade LGBT através dos mesmos padrões que utilizamos em relação à comunidade hétero? Com as pessoas LGBT somos tentados a focalizar-nos no facto de se elas estão em total consonância com os ensinamentos da igreja sobre a moral sexual. Portanto, vamos fazer o mesmo com os paroquianos hétero - com aqueles que vivem juntos antes de se casarem ou praticam o controle de natalidade? Sejamos consistentes sobre que vidas irão ser escrutinadas. Os pastores são muitas vezes mais acolhedores das situações complexas das pessoas hétero porque as conhecem. Por exemplo, mesmo quando Jesus condena completamente o divórcio, a maioria das paróquias acolhe pessoas divorciadas. Tratamos as pessoas LGBT com a mesma compreensão?

 

O que podemos fazer acerca destas atitudes? Ser honestos acerca delas. Mas também obter factos, não mitos, sobre a orientação sexual e identidade de género a partir de fontes científicas e socio-científicas e não a partir de boates e de sites com informação false e homofóbica. Depois, falar com Deus e com o vosso diretor espiritual sobre os vossos sentimentos e ser abertos à resposta de Deus. Convidar a vossa equipa pastoral a falar sobre os seus sentimentos e vivências. Isto conduz ao próximo passo.

 

2) Escutem-n@s. Escutem as vivências d@s católic@s LGBT, respetivos progenitores e familiares. Se não souberem o que dizer poderão perguntar: «Como terá sido crescer como um rapaz gay na nossa igreja?» «Como será ser uma católica lésbica?» E uma pergunta importante: «Como será ser uma pessoa transgénero?» Ainda sabemos pouco sobre a vivência transgénero, portanto devemos escutar. Convidar os progenitores de uma criança LGBT a falarem com a vossa equipa pastoral. Perguntar-lhes: «Como é ter um@ filh@ gay?» «Como é que a igreja vos ajudou ou magoou?» «Como é que o vosso entendimento de Deus mudou?» E prestem atenção ao que eles dizem. Para isso, prestem atenção à linguagem que eles dizem que acham ofensiva e desnecessariamente dolorosa: «sodomia», por exemplo. Os nomes, as palavras e a terminologia são importantes.

 

Avaliamos a comunidade LGBT através dos mesmos padrões que utilizamos em relação à comunidade hétero?

 

No geral, quer estejam a participar num ministério como um programa de ajuda a pessoas LGBT ou se estejam a encontrar a sós com uma pessoa LGBT, comecem com as suas vivências. Para esse fim, acreditem que o Espírito Santo as guiará na sua formação enquanto cristãos. Não lidamos com os demais católic@s, repetindo simplesmente o ensinamento da igreja sem considerarmos as suas experiências vividas. Portanto, evitem fazer isso com as pessoas LGBT. Reparem como Jesus tratou as pessoas nas margens: por exemplo, como tratou a mulher samaritana. Castigou-a por ser casada várias vezes e viver com alguém? Não. Em vez disso, Jesus escutou-a e trata-a com respeito. Portanto sejam como Jesus: escutem, encontrem, acompanhem. Se a igreja tivesse ouvido as pessoas LGBT, 90 porcento da homofobia e do preconceito desapareceria.

 

3) Reconheçam-n@s nas homilias ou nas apresentações paroquiais como membros de pleno direito da paróquia, sem julgamentos e não como católicos tresmalhados. As pessoas LGBT nunca deveriam ser diminuídas ou humilhadas a partir do púlpito - aliás, como ninguém o deveria. Somente mencionando-as pode já ser um passo em frente. Algumas vezes nas homilias digo, «Deus ama-nos a tod@s - quer sejamos velhos ou novos, ricos ou pobre, hétero ou LGBT.» Mesmo algo pequeno como isto pode enviar um sinal. Também envia um sinal aos progenitores e avós, irmãos e irmãs, tias e tios. Podem pensar que não têm ninguém LGBT na vossa paróquia. Porém, certamente que haverá progenitores ou avós de pessoas LGBT. Têm pessoas, nas vossas paróquias, que amam pessoas LGBT.

 

4) Peçam-lhes desculpa. Se as pessoas católicas LGBT ou as respetivas famílias foram magoadas em nome da igreja por comentários, atitudes e decisões homofóbicas, peçam-lhes desculpa. E estou aqui a falar para os ministros da igreja. Estas pessoas foram magoadas pela igreja, você é um ministro da igreja. Pode pedir desculpa. Não resolve nada, mas já é um começo.

 

5) Não reduzam gays e lésbicas ao chamamento à castidade que tod@s partilhamos enquanto cristãos. As pessoas LGBT são mais do que as suas vidas sexuais. Porém, algumas vezes é somente isso que escutam. Lembrem-se para não se fixarem apenas na sexualidade, mas também nas muitas outras alegrias e tristezas presentes nas suas vidas. Estas pessoas levam vidas ricas. Muit@s católic@s LGBT são el@s próprios progenitores ou cuidam de progenitores já velhinhos; muit@s estão envolvid@s em organizações cívicas e de caridade. Encontram-se, frequentemente, envolvid@s na vida paroquial. Vejam-se na sua totalidade. E se falarem de castidade com as pessoas LGBT, façam-no da mesma forma que o fazem com as pessoas hétero.

 

As pessoas LGBT são mais do que as suas vidas sexuais. Porém, algumas vezes é somente isso que escutam

 

6) Incluam-n@s em ministérios. Como já referi, existe a tendência de focagem na moralidade sexual dos paroquianos LGBT, o que é errado, porque, primeiro, frequentemente vocês não fazem ideia de como são as suas vidas sexuais; e, segundo, se el@s estão a pisar em terreno quebradiço, não são @s únic@s. Como resultado, as pessoas LGBT podem sentir que têm de ser desonestos sobre quem são e que não têm lugar nos ministérios. Como toda a gente na vossa paróquia que não vive de acordo com os Evangelhos - que é toda a gente - as pessoas LGBT deveriam ser convidadas para os ministérios paroquiais: ministros da comunhão, ministros da música, leitores, ministério do luto e todos os demais ministérios. A propósito, ao não @s acolher a igreja perde os seus dons. El@s irão simplesmente para onde são acolhid@s, para onde possam levar os seus eus na totalidade. Também, pedir a alguém que se sentiu deixado de lado durante toda a sua vida pode ser uma mudança de vida.

 

7) Reconheçam os seus dons individuais. Não somente deveríamos acolher os dons que as pessoas LGBT oferecem à igreja enquanto grupo, mas os seus dons individuais devem ser valorados. Por exemplo, um dos cantores na minha paróquia jesuíta é um homem gay. Ele é gentil e misericordioso e a sua voz maravilhosa tornou-o numa parte essencial da nossa oração durante 20 anos. Elevem-n@s. Não escondam a sua luz debaixo da vossa saia!

 

8) Convidem todas as pessoas do staff paroquial para que @s acolham. Podem ter um pastor de acolhimento, mas e que tal se forem tod@s? A pessoa que atende o telefone sabe o que responder a um casal de lésbicas que quer batizar @ filh@? Nos funerais, os filhos gay adultos do falecido são tratados com o mesmo respeito do que os demais filhos? E que tal o professor numa escola da paróquia que tem dois pais que vêm a uma reunião de encarregados de educação? Como é que um diácono trata o pai de um homem gay acabado de falecer e que pretende um funeral para o filho? Católicos gay e católicas lésbicas são acolhidos nos grupos de luto quando um@ companheir@ morre? A vossa paróquia encontra-se aberta a filh@s de todos os casais e não somente dos héteros? Filhos e filhas de casais de lésbicas ou gays são bem-vindos nas escolas paroquiais, programas educacionais e de preparação para os sacramentos? O vosso staff paroquial é educado no total alcance do ensinamento da igreja sobre a não discriminação e a ajuda pastoral?

 

A voz da vossa paróquia não é somente a voz do vosso pastor, mas a voz de toda a gente. Pensem nisso desta forma: Ao não acolher e excluir @s católic@s LGBT, a igreja está a falhar no seu chamamento a ser a família de Deus. Ao excluir as pessoas LGBT, vocês estão a destroçar a família de Deus; estão a desmembrar o Corpo de Cristo.

 

Ao excluir as pessoas LGBT, vocês estão a destroçar a família de Deus; estão a desmembrar o Corpo de Cristo

 

9) Apoiem eventos especiais ou desenvolvam um programa de ajuda. Tal como toda a gente, 2s católic2s LGBT querem sentir que são parte da igreja. E, no que diz respeito aos seus filhos e filhas, o ónus está na igreja em os convidar para a comunidade. Porém, para muitas pessoas LGBT a igreja não tem sido lugar de acolhimento. Portanto atividades concretas e programas de ajuda são uma ajuda para preencher o fosso entre as vossas intenções e as suspeitas del2s.

 

Quanto a atividades, há muitas possibilidades. Podem oferecer uma Missa de acolhimento, um retiro de fim-de-semana, um dia de memória, um clube de leitura ou um orador. E as atividades de oratória não têm de ser somente sobre temas LGBT. Ou seja, apoiar um orador para falar aos paroquianos LGBT acerca da oração. Ou exibam um vídeo sobre um tópico sobre o qual as pessoas necessitem estar informadas, somo uma experiência de uma pessoa transgénero. Novamente, este tema - pessoas transgénero - é um assunto sobre o qual a igreja precisa aprender porque a sociedade ainda está a aprender sobre ele. O Bispo Christopher Coyne de Burlington, disse: «Não vejo qualquer razão para as pessoas transgénero não serem acolhidas na igreja. Há mais evidência... de que muito disto é biológico; não é somente algo que uma pessoa faça porque é uma escolha da moda ou cultural. É o que estas pessoas são... toda a gente é uma criatura de Deus e convido todos a se sentarem à mesa.»

 

Quanto aos ministérios de ajuda para pessoas LGBT, existem muitos modelos. Vão desde programas onde as pessoas LGBT falam, em privado, umas com as outras, aos onde paroquianos LGBT se encontram com outros paroquianos; a programas educacionais sobre o ensinamento da igreja; a abordagens mais holísticas onde o grupo não se centra na sexualidade mas nas outras questões que as pessoas LGBT enfrentam; a grupos de família para progenitores; a grupos que promovem ajuda à comunidade LGBT na área, como o trabalho em abrigos para jovens LGBT; para programas do tipo «misturar», nos quais a paróquia inclui tópicos LGBT como um elemento entre outros na paróquia: em programas de educação para adultos, justiça social e ministério com jovens. Tudo isto depende da vossa paróquia.

 

No que diz respeito aos progenitores, uma mãe disse, quando lhe perguntei o que é que vos deveria dizer hoje: «A coisa mais importante a dar aos pais é a segurança, um espaço de acolhimento para que possam partilhar as suas histórias com outros progenitores católicos. Pois muitos sentem-se sozinhos e pensam que mais ninguém está a passar pelo mesmo. É um alívio saber que há outr2s na viagem. E não precisam de escutar filhos e filhas serem comparados com alcoólicos. Escutar afirmações positivas do púlpito seria também bonito, em vez de agirem como se os seus filhos e filhas não existissem.»

 

No ano passado, a paróquia jesuíta onde celebrei Missa - chamada, sem surpresa, Santo Inácio de Loyola - apoiou uma noite de partilha de histórias. Seis elementos da nossa paróquia juntaram-se - três homens gay, a mãe de um filho gay, o pai de um filho gay e o seu filho gay adolescente - para falarem das suas vidas. A sua partilha de histórias de alegria e de tristeza foram cura para eles e para toda a paróquia. Porquê cura para eles? Imaginem o que é pensar durante toda a vida que não se é parte da igreja e depois ser-lhes pedido que falassem sobre as suas experiências. E cura para o resto da paróquia, porque nos uniu a todos de uma forma que dificilmente poderíamos ter imaginado.

 

10) Defendam-n@s. Sejam proféticos. Há inúmeros momentos nos quais a igreja pode fornecer uma voz moral em prol desta comunidade perseguida. E não me estou a referir acerca de temas quentes como o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Estou a falar de incidentes em países onde os homens gay são arrebanhados e atirados para a cadeia ou mesmo executados pelo facto de serem gays e as lésbicas são violadas como forma de «as curar» das suas orientações sexuais. Nesses países, os assuntos LGBT são assunto de vida. Noutros países, essa voz pode responder a incidentes de suicídio de adolescentes ou crimes de ódio ou bullying. Há muitas oportunidades para as paróquias estarem ao lado das pessoas LGBT que estão sendo perseguidas.

 

Isso faz parte do que significa ser cristão: defender os marginalizados, os perseguidos, os abatidos

 

O Catecismo diz: «Qualquer sinal de injusta discriminação deve ser evitado» no que diz respeito às pessoas LGBT. Acreditamos nesta parte do Catecismo? A Congregação para a Doutrina da Fé escreveu em 1986: «É deplorável que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam objeto de discursos e ações violentos. Tal atuação merece a condenação dos pastores da igreja onde quer que aconteça.» Acreditamos nesta declaração da CDF?

 

Isto é parte do que significa ser cristão: defender os marginalizados, os perseguidos, os abatidos. É chocante o pouco que a igreja católica tem feito. Deixem que os vossos paroquianos LGBT saibam que vocês estão a seu lado, mencionem a sua perseguição numa homilia, sempre que apropriado, ou na oração dos fiéis. Sejam proféticos. Sejam corajosos. Sejam como Jesus.

 

Porque de que serviria se não estivéssemos a tentar ser como Jesus? E lembrem-se de que Jesus, no seu ministério público, continuamente ajudou pessoas sentiam que estavam nas margens. O movimento em prol de Jesus foi de fora para dentro. Ele estava a trazer pessoas que se sentiam fora, para dentro da comunidade. Porque para Jesus não há "nós" e "el@s". Há somente nós.

 

Com essa finalidade, gostaria de terminar com uma história dos Evangelhos para nos ajudar a meditar no nosso chamamento a acolher e respeitar as pessoas LGBT e respetivas famílias.

 

O Evangelho de Lucas apresenta-nos a maravilhosa história do encontro de Jesus com Zaqueu. Jesus encontra-se a viajar através de Jericó, uma grande cidade. Está a caminho de Jerusalém, já na fase final do seu ministério, portanto ele era bem conhecido na zona. Em resultado disso, tinha provavelmente uma ampla multidão que seguia atrás dele. Em Jericó, há um homem chamado Zaqueu. Ele era o chefe dos cobradores de impostos da região e como tal seria igualmente visto pelos judeus como o «pecador chefe.» Porquê? Porque seria encarado como estando em conluio com as autoridades romanas. Portanto Zaqueu era alguém que estava provavelmente afastado de toda a gente.

 

Para Jesus, é comunidade primeiro, conversão em segundo. Acolhimento e respeito vêm em primeiro lugar

 

Chegados aqui, gostaria de vos convidar a pensarem em Zaqueu como um símbolo para as pessoas católicas LGBT. Não porque as pessoas LGBT sejam mais pecadoras que o resto de nós - porque tod@s somos pecadores. Mas porque se sentem tão marginalizados. Pensem nas pessoas LGBT como Zaqueu.

 

O Evangelho de Lucas descreve Zaqueu como de «estatura baixa.» Que tão baixa «estatura» as pessoas LGBT frequentemente sentem que têm na igreja. Lucas diz-nos igualmente que Zaqueu não podia ver Jesus «devido à multidão.» Isso seria provavelmente devido à sua altura, mas com que frequência a «multidão» se coloca no caminho do encontro pessoal entre as pessoas LGBT e Jesus? Quando é que nós na paróquia somos parte da «multidão» que não deixa as pessoas LGBT se aproximarem de Deus?

 

Portanto, Zaqueu sobe a uma árvore, porque, conforme Lucas nos conta, ele queria ver «quem era Jesus.» E isto é o que as pessoas LGBT querem: ver quem é Jesus. Porém, a multidão metesse no caminho.

 

Então agora temos Jesus a caminho através de Jericó, provavelmente com centenas de pessoas clamando pela sua atenção. E para quem é que ele aponta? Para uma das autoridades religiosas? Para um dos seus discípulos? Não, para Zaqueu! E o que é que ele diz a Zaqueu? Grita-lhe: «Pecador!» Grita-lhe: «Seu terrível cobrador de impostos?» Não! Diz-lhe, «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa.» É um sinal público de acolhimento de alguém que se encontra nas margens.

 

Então vem a minha linha favorita na história: «Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si,» que é exatamente aquilo que se passa hoje em relação às pessoas LGBT. As pessoas murmuram! Vão à internet e verão todo o murmúrio. Uma oferta de misericórdia a alguém nas margens faz com que as pessoas se irritem.

 

Porém Zaqueu desce da árvore e, como diz o Evangelho, «ficou ali.» O grego original é bem mais forte: stathesis: ele manteve-se firme. Quantas vezes as pessoas LGBT têm de se manter firmes face à oposição e ao preconceito na igreja?

 

Então Zaqueu diz que dará metade dos meus bens aos pobres e restituirá quatro vezes mais a quem tenha defraudado. Um encontro com Jesus conduz a uma conversão, como o faz para toda a gente. E o que quero dizer por conversão? Não «terapia da conversão.» Não, a conversão que acontece a Zaqueu é a conversão à qual tod@s somos chamados. Nos Evangelhos, Jesus chama-a de metanoia, uma conversão de mentes e corações. Para Zaqueu, conversão significou dar aos pobres.

 

Tudo isto provém de um encontro com Jesus. Porque a abordagem de Jesus era, maioritariamente, a comunidade em primeiro lugar, a conversão em segundo. Para João o Batista o modelo era converter primeiro e depois ser acolhido na comunidade. Para Jesus, é a comunidade em primeiro lugar, a conversão em segundo. Acolhimento e respeito vêm primeiro.

 

É assim que Jesus trata as pessoas que se sentem nas margens. Alcança-as antes de mais alguém; encontra-as e trata-as com respeito, delicadeza e compaixão.

 

Portanto, no que se refere às pessoas LGBT e respetivas famílias nas nossas paróquias, parece haver dois lugares onde podemos estar. Podemos estar do lado da multidão, que múrmura e que se opõe à misericórdia para com aqueles nas margens. Ou podemos estar do lado de Zaqueu e, mais importante, com Jesus.

 

Tradução: José Leote (Rumos Novos)