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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Por que é necessário que um menino de 12 anos saiba o que é ser gay?

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Aí pelos anos 70 do século passado, a educação sexual em Espanha não existia. A mulher sofria na própria pele. Sei por casos próximos - muitos, talvez demasiados - que as mulheres não faziam a mínima ideia do que era a menstruação antes de a terem. Sei-o através da minha irmã, que não sabia nada e pensou que ia morreu quando ela veio. A minha mãe fez o que se fazia então. Não dizer nada. Porém, quando viu o que aconteceu com a minha irmã decidiu que eu ia aprender sobre a sexualidade. Não é que ela soubesse muito, a pobre, imaginem a educação sexual de uma mulher que cresceu na ditadura de Franco. Porém, teve a lucidez suficiente para me comprar revistas e livros. "Que aprenda com isso e não na rua" escutei-a a dizer certa vez a uma vizinha quando esta a recriminava porque uma vez me tinha visto com essas revistas. Sim, eu sou filho do consultório sexológico do Pronto, do Nuevo Vale e do LIB que os meus primos compravam.

Contudo, naqueles consultórios sexológicos de finais dos anos setenta e princípio dos oitenta falava-se pouco, já para não dizer nada, do que era ser gay.

Deste modo, quando eu descobri que era como era tive de gramar tudo sozinho. Não foi fácil e foi doloroso, mas não vou aqui contar todo o passado porque é como uma novela.

O que se pode dizer é que estava tão desesperado porque não conhecia nenhum gay (agora dá-me vontade de rir, quando seu que Jerez está cheio de gays) que a única coisa que me passou pela cabeça - e em boa hora o fiz - foi ligar para a Casa da Juventude. Marquei o número muitas vezes e desliguei. Secava-se-me a garganta. Até que o consegui fazer, sempre a partir de uma cabine telefónica, claro. Atendeu-me o telefone Toñi Asencio, médica, que na época tinha a área da educação sexual. Sempre que a vejo digo-lhe que, na verdade, me salvou a vida. Esclareceu-me que eu não era o único gay de Jerez (lá me vem de novo a vontade de rir. Agora. Naquele tempo foi um drama). Colocou-me em contacto com uma associação de gays e lésbicas de Sevilha e a partir daí já a minha vida viu a luz. Dava para outra novela.

Por que é importante que uma criança saiba o que é ser gay? Para que quando descubra que o é não passe pelo que eu passei, nem pelo que passaram os milhões de gays em Espanha e do mundo. Para que saiba que não se vai passar nada de mau, que ninguém hoje em Espanha a vai discriminar porque isso é um delito e, sobretudo, para que saiba como atuar e onde e a quem pedir ajuda quando dela necessite e para que não se encontre só.

Não, não é doutrinar porque o ser-se gay não se aprende. É-se. Como eu não aprendi a ser hétero quando o meu professor desenhou uma vagina no quadro. Nem fiquei hétero quando ia com os meus amigos héteros às discotecas de então. Nem mesmo quando já aos vinte anos confessei que era gay. Ninguém se torna gay. Ou seja, que os senhores de sempre estejam tranquilos. Nenhum menino se tornará gay porque lhe explicaram o que é ser gay. O que se conseguirá é que esse menino que é gay seja mais feliz por sê-lo e não lhe dar uma infância desgraçada.

E agora a esta coluna de opinião mudem o nome de gay para lésbica. E acrescentem-lhe a discriminação por ser mulher para formar a equação. Multipliquem por três ou mais a dor se o menino ou a menina for transexual.

 

Fonte: La Voz del Sur.