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RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Somos católic@s LGBT que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

Sou um padre gay, mas estou a questionar a permanência numa igreja que culpa a homossexualidade pelo abuso de crianças

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Sou um homem gay.. Sou igualmente um padre colocado numa comunidade de fé vibrante e acolhedora. Passei igualmente muitos anos num seminário no coração da Igreja católica institucional.

 

Crescer gay foi uma parte de mim como o é o facto de ser humano. Cresci com a consciência desse facto, tendo gradualmente passado por várias fases de vergonha devida ao bullying versus aceitação - antes de o abraçar e mesmo gostar disso como acontece hoje.

 

Sempre fui recatado, ainda hoje o sou, e somente saí do armário para alguns familiares e amigos - e sinto-me bem assim.

 

Quando era jovem e pensava seriamente em tornar-me padre, tinha medo de ser rejeitado porque era gay. O ensinmento oficial da igreja católica afirma que a homossexualidade é intrinsecamente desordenada. E eu nunca levantei a cabeça para desafiar este ensinamento e somente o aceitei, como toda a gente faz. Mais à frente na caminhada, as linhas orientadoras da igreja afirmariam que os homens com tendências homossexuais profundamente enraízadas não deviam ser admitidos nos seminários.

 

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Felizmente que quando senti o chamamento para ser padre e fui honesto acerca da minha sexualidade, fui tratado com respeito e fui aceite. Um padre envolvido na seleção brincou dizendo que se a igreja se visse livre de todos os padres gays, somente restaria um velho cardial com uma máquina de escrever.

 

Portanto agora, como padre com cerca de 10 anos de experiência, já não tenho que adular (não que alguma vez o tenha feito) estes ensinamentos repugnates, tais como a homossexualidade ser intrinsecamente desordenada e que os jovens não podem ser admitidos nos seminários simplesmente porque são gays.

 

É por isso que quando recebi a cópia de uma carta aberta aos Bispos Católicos da Inglaterra e do País de Gales, escrita pelo Pe. David Marsden, quis falar.

 

Marsden escreveu a sua carta aberta depois de ter sido afastado do seu cargo no Oscott College, um seminário em Birmingham. Ele foi afastado por ter discordado do diretor acerca de um aluno que ele achava ser abertamente gay. Marsden queria o estudante expulso. O diretor, claramente um homem de caráter, recusou-o determinantemente.

 

Marsden estabeleceu igualmente algumas ligações muito perturbantes entre os padres predadores e a homossexualidade, referenciando Theodore McCarrick, um prelado americano, que resignou em julho do cargo de Cardial, após muitas acusações de comportamente predatório terem sido feitas contra ele.

 

Da carta de Marsden, cito: «Espero e oro que a ação do Espírito Santo esteja agora a purificar a hierarquia ao expor o mal perpetrado pelo clero homossexual um pouco por todo o mundo. Sinto ser meu dever informá-lo e aos fiéis católicos que o coletivo homossexual no seio da hierarquia que permitiu ao [ex-cardial] McCarrick funcionar de um modo sem obstáculos, ainda se encontra hoje vivo na igreja católica na Inglaterra e no País de Gales.»

 

Temos aqui um exemplo doentio de ligar sacerdotes gays - que os há muitos - a comportamento predatório. Isto não está somente fatualmente errado, mas cheira igualmente a uma flagrante homofobia.

 

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O Papa Francisco visita a Irlanda por altura do Encontro Mundial das Famílias 2018, enfrentando um manifestante exibindo um cartaz que diz: «Pope head of the biggest paedophile ring in the history of man» («Papa o chefe da maior rede de pedofilia na história do homem») .

 

Ninguém pode fingir que os escândalos recentes na igreja envolvendo má conduta sexual, abuso e encobrimentos não tiveram um efeito devastador na imagem da igreja católica. É um desastre de relações públicas e ninguém parece ser capaz de lidar de forma eficaz com a crise. O Papa Francisco está, pelo menos, a tentar e pode ser louvado pela sua abordagem de misericórdia e senso-comum. Contudo, o Papa tem muitos inimigos que o veem como um liberal e que anseiam pelo regresso aos dias da direita política do papa alemão Bento XVI.

 

Tudo isto levou-me a baixar as escotilhas no meu pequeno mundo. Questionei em numerosas ocasiões se quero mesmo exercer o sacerdócio como membro a tempo inteiro da igreja. E, apesar disso, continuo. Vou em frente. Porquê? Porque a minha fé e a preciosa fé dos meus paroquianos, jovens e idosos, que sentem conforto e esperança na vida e palavras de Jesus, não é propriedade da igreja institucional. Não depende de politiquices mesquinhas e cartas abertas vis.

 

Tradução do inglês: José Leote (Rumos Novos)