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Associação RUMOS NOVOS - Católicas e Católicos LGBTQ (Portugal)

Somos católic@s LGBTQ que sentiram a necessidade de juntos fazerem comunhão, partilhando o trabalho e as reflexões das Sagradas Escrituras, caminhando em comunidade à descoberta de Deus revelado a tod@s por Jesus Cristo.

26 de Junho, 2019

Uma Resposta ao Documento do Vaticano: Ele os criou Homem e Mulher

Rumos Novos - Católicas e Católicos LGBT (Portugal)

Unsplash/Jordan McDonald

 

Há quase oito anos, quando estava a tirar o mestrado na Universidade de Fordham, conheci uma pessoa transgénero pela primeira vez na vida. Fordham estava a realizar uma conferência intitulada «Mais do que um Monólogo: Diversidade Sexual e a Igreja Católica». A ativista católica Hilary Howes abriu a conferência com um relato tocante da sua história enquanto mulher nascida «com genitais masculinos e cérebro feminino». Depois da conferência tive oportunidade de conversar mais um pouco com Hilary, na receção e saí nessa noite convencido da autenticidade da sua experiência.

 

Antes de escutar a intervenção da Hilary, nunca tinha encontrado uma pessoa trans - e, para ser honesto, nunca tinha pensado sobre a experiência trans, que aposto é o caso da maioria dos católicos e católicas. O relato de sofrimento da Hilary e a luta com a sua autocompreensão numa igreja que não encara a sua experiência como válida ou autêntica foi, para mim, uma verdadeira experiência de conversão, na qual escutar e dialogar com uma pessoa que ama a sua igreja apesar de tudo, abriu a minha mente e coração a novas formas de entender o sexo, o género e a sexualidade.

 

Apesar do seu compromisso afirmado com o escutar e com o diálogo, a instrução da Congregação para a Educação Católica «Ele os criou Homem e Mulher: Em Direção a um Caminho de Diálogo sobre a Questão da Teoria de Género na Educação» nega a experiência de pessoas como Hilary Howes para acabar por impor, de cima para baixo, a «complementaridade» antropológica tradicionalmente encontrada nos documentos do Vaticano, como na «Teologia do Corpo» de João Paulo II. A complementaridade necessita de relações sexuais binárias homem-mulher - «Ele os criou Homem e Mulher» - como medida do que significa ser humano.

 

Como alguém que colheu os benefícios e suportou os desafios da educação católica e enquanto professor numa instituição jesuíta, estou muito preocupado com a instrução - e sobre o que ela pode pressagiar para declarações futuras do Vaticano sobre o género. Neste apontamento gostaria de realçar três áreas de preocupação acerca da instrução - uma científica, uma bíblica e uma pastoral - na esperança de desafiar católicos e católicas de todos os tipos a celebrar a diversidade da expressão de género dada por Deus com atenção compassiva à experiência de pessoas como Hilary Howes.

 

Primeiro, como um estudioso que trabalha na interseção da teologia, ecologia e ciência, tenho sérias preocupações acerca dos apelos da instrução em relação à biologia. A instrução descreve as expressões não-binárias ou transgéneras como aspetos de uma teoria de género «estritamente sociológica». Para apoiar esta pretensão, socorre-se de uma biologia binária baseada na distribuição dos cromossomas XX/XY: as crianças nascem macho ou fêmea e as pretensões de que as pessoas intersexo ou transgéneras existem são manifestações falsas da «ideologia de género».

 

Porém a medicina e a biologia contradizem as pretensões da instrução. Em 2017, a Associação Americana de Medicina, ou AMA (American Medical Association), afirmou que o género se encontra «incompletamente compreendido como seleção binária». Do mesmo modo apoia as terapias e cirúrgias de «conformação de género» que afirmam a identidade de género de uma pessoa como vivida - muito para além das terapias de realinhamento para as quais a instrução apela. Em 2013, a Associação Americana de Psiquiatria, ou APA (American Psychiatric Association), renomeou as «perturbações de identidade de género» como «disforia de género» no seu Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais, interpretando a experiência de pessoas como Hilary Howes não como uma doença a ser curada, mas como uma condição genuína a ser acompanhada e tratada com terapias de acordo com o autoconhecimento da pessoa.

 

O apelo da instrução à ciência do género binário não está de acordo com o consenso científico contemporâneo. Este ponto parece especialmente problemático dado que a AMA e a APA são organizações de peritos científicos com o treino para tratarem estes assuntos de forma correta. Confiar na ciência do género do Vaticano é o mesmo que confiar no diagnóstico de diabetes efetuado por um padre.

 

Segundo, como o título indica, a instrução vê modelos não-binários de género como contrários à natureza, pelas narrativas da criação do Génesis. Porém, esta pretensão está com conflito direto com o apelo de João Paulo II para um «diálogo intenso» entre fé e ciência e a sua declaração de 1996 de que não há «qualquer conflito entre a evolução e a doutrina da fé no que diz respeito ao homem e à sua vocação». Pois, se a teoria da evolução limita a influência do Génesis como explicação das origens cósmicas - aceitando que o universo não foi criado em sete dias - então o magistério não pode pretender que o mesmo texto é determinante para o género quando o consenso científico diz outra coisa. Somente este facto deveria ter o peso suficiente para levantar preocupações sobre as garantias bíblicas da complementaridade, mas a instrução continua sem qualquer referência a estas preocupações. Talvez o género seja uma área na qual, como João Paulo II afirma «a ciência pode purificar a religião do erro e da superstição».

 

Terceiro, quando a instrução explicitamente se opõe à violência - incluindo o bullying nas escolas - contra as pessoas LGBTQ+, a caracterização das expressões de género não binárias como uma escolha rebelde baseada em «sentimentos e desejos» origina a injustiça em relação àquelas e àqueles que, tal como Hilary Howes, têm procurado o reconhecimento numa igreja que recusa reconhecer a sua existência. A instrução parece cega às lutas diárias sociais e eclesiais que as pessoas LGBTQ+ enfrentam diariamente - lutas inimagináveis para as pessoas cisgénero e heterossexuais que detêm o poder na igreja e no mundo.

 

Estatísticas surpreendentes desafiam a pretensão da instrução de que as experiências trans e não-binárias são questões de escolha e indicam a cumplicidade da igreja na violência contra as pessoas LGBTQ+, particularmente dada a sua presença em países que criminalizam a expressão trans e os atos entre pessoas do mesmo sexo.

 

Por exemplo, de 2007 a 2014, uma média de 250 pessoas trans foram assassinadas por ano e 369 pessoas trans ou não-binárias foram mortas entre outubro de 2017 e setembro de 2018. A maioria é mulheres trans de cor e muitas morreram por processos violentos. Para além disso, quase 80% dos e das adolescentes trans e não-binários relatam ter tentado o suicídio enquanto lutavam para encontrar as suas identidades de género. Dadas estas estatísticas, as expressões de género trans e não-binárias são, de forma clara, não «somente uma manifestação 'provocadora' contra a chamada 'moldura tradicional'». Parece que a rejeição por parte do magistério das experiências trans e não-binárias como sendo uma rebelião contra a natureza serve somente para por um ponto final nas conversas sobre o género, mesmo antes destas começarem e encontra na comunidade LGBTQ+ o seu bode expiatório como forma de manter a complementaridade, negando a necessidade de acompanhamento pastoral verdadeiramente comprometido com as lutas que as pessoas LGBTQ+ enfrentam diariamente.

 

Porém a complementaridade não é bíblica nem biológica. A igreja tem de ter presente a experiência das pessoas LGBTQ+ e não pode simplesmente ignorar as descobertas científicas que se revelam inconvenientes para a preservação e transmissão da doutrina. Em nome do amor proclamado por Jesus - um amor vivido diariamente pelos católicos e católicas trans como a Hilary Howes, que procuram justiça para aquelas e aqueles marginalizados na igreja e na sociedade - é nosso dever abraçar a diversidade maravilhosamente selvagem de todas as criaturas maravilhosas que o nosso Deus criou.

 

Fonte: National Catholic Reporter